Julgamento do desejo.


Réu: Meritíssimo, eu errei porque fui enganado! Aprendi que isso a que chamam "amor" não foi tudo o que se precisava para viver e manter aquele relacionamento. Por favor, tenha piedade. Não foi minha culpa!

Juiz: Economize suas palavras, senhor Desejo. Sua culpa esteve em se permitir confundir com outros sentimentos escancarados pela ferida narcísica, como este orgulho ilusoriamente egoísta que carrega como trunfo em sua censura.

Réu: Eu sei, meritíssimo. Não consegui me desfazer do orgulho, e sei que estou condenado assim a amar sozinho, ou pior, a amar eternamente um ideal de amor romântico fracassado. Por favor, não me condene. Não há nada pior do que isto.

Juiz: Sim, há algo pior do que isto. Por isso, anuncio que deixo que o senhor permaneça vivo, mas condenado à pena perpétua de dividir os restos do que sobrou daquilo que não endereçou a quem realmente desejava, ao invés de simplesmente amar sozinho ou se alimentar de ilusões fracassadas. Condeno-o a desperdiçar tudo a que chamam "amor".

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