Realidade Clandestina.




Em uma carta à Maria Adelaide Amaral, Caio F. inspira minhas veias imaginárias de poeta quando diz que "quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho."
Ele, ao mesmo tempo, me reforça o receio do processo de mudança, quando continua a mesma frase anterior dizendo "[...]e fatalmente se fode, porque está tentando adequar/ajustar um arquétipo, uma imagem de toda a nossa infinita carência, nossa assustadora sede, a uma realidadezinha infinitamente inferior."

Assim como Caio, percebo que os poetas, os verdadeiros poetas, persistem em usar a metáfora fantasiosa da contra-realidade pra justificar que a verdadeira inspiração (e felicidade disfarçada) só é concedida à base de muito platonismo.

Eu, em minha inferior e humilde posição de objeto desejante faltoso, sinto que os caminhos não se fecham aí; há um quê de mais-que-merda para a realidade sim. Basta tirá-la de seu pedestal de escolha hedonista e colocar de lado aquela velha mania de achar que o tempo vai girar ao redor só daquela poesia de outrora.


::: Trechos de Caio F. "roubados" da minha psicanalista blogueira favorita, Vanessa Souza Moraes, do Meu divã é na cozinha.

Para: "O Obscuro Objeto de Desejo".

Caríssimo,

Preciso de uma luz. Ultimamente meus sintomas têm me mostrado que o caminho a percorrer poderia ser diferente daquele que havias me sinalizado como o real. Por ainda não saber teu endereço, resolvi entregar esta carta à nossa amiga angústia. Lembrei-me quando ela me disse que te conhecia "de vista", que já te viu passando por aí, mas que não sabia onde moravas. Agora que ela não larga mais do meu pé, achei que era melhor nos unirmos logo desta vez para ir em busca dos teus rastros (ps: devo admitir que ela não é lá essas maravilhas como companheira de viagem, mas pelo menos não me deixa na mão quando preciso).

Confesso que demorei, mas finalmente acabei sentindo que tu não te mantinhas além daquela mesma e tão repetida demanda de outrora. Penso que, no fundo, eu sabia, sempre soube que daquela forma não iria conseguir satisfazê-lo. A pontuação da minha analista me chamou a atenção, mas não foi o suficiente para que eu mudasse o caminho naquele momento. Insisti, sim; admito, e não me julgues por isso. Foi por querer te encontrar, e sei que nada foi em vão. Sei que busquei incansavelmente aquele ideal, o amor utópico que me faz ser inspiradamente completa, e, por tantos momentos, inconstantemente verdadeira. Por vezes o achei, e pensei que estivesse na rota certa para a tua morada, mas logo me vi ludibriada, talvez por fazer parte deste meu tão complicado gênero. Hoje, vejo que a busca por este amor me ajudou a compreender outros caminhos, para que eu continuasse à tua procura.

Já pensei em desistir diante das constantes perdas e reviravoltas nesse tortuoso caminho que me fazes trilhar, já até me encolhi de DESESPERO em tantas esquinas de negações; aos poucos, acho que acabei por me acostumar com a ilusão de acreditar que a pressa me levaria a algum lugar. O importante é que agora sinto que não vou mais fraquejar nessa rota que me colocas, pois, pasme: a muito já não sinto mais as lágrimas que me fazem viva, aquelas mesmas que um dia foram derramadas com tanta convicção e incoerência!

Talvez eu e a angústia concordemos em deixar essa carta em algum canto qualquer para que venhas buscar. Nós saberemos quando vieres porque, por vezes, mandas um ato falho, chiste ou sonho qualquer que sinaliza a tua presença. Mas enquanto eles não chegam, podes me dar uma dica sobre como saber se os rastros que estamos seguindo são verdadeiros, já que o caminho anterior não mantinha a tua dimensão no teu devido lugar?

Às vezes eu penso que queres mais é ser confundido mesmo, queres continuar mergulhado nas partes mais profundas do meu inconsciente e nunca ser des-coberto, é isso mesmo?

Aguardo respostas.
Até breve!


Terapia da Utopia.

Hoje eu não queria escrever em metáforas.
Hoje eu só queria me deleitar de um prazer tão real quanto o meu desejo.
Hoje eu quero esquecer tudo o que não foi dito, tudo o que não foi vivido, e tudo o que não quero que seja esquecido.
Hoje, quando nem mais a utopia me pertence
Quando tudo o que ficou pra trás já não me preenche

Hoje, eu só quero mais poesia
Hoje eu só quero a minha poesia.


A la folie...pas du tout.



Os dias, mais uma vez, passaram a ser vividos com a ansiedade inconstante da pressa.
É um tal de idealiza fantasia daqui, realiza o que já é concreto de lá.
Virtualidade ou presença de fato, desejo ou coerência...
Ainda é o mesmo antagonismo, aquele que a psicanálise quase diria que Freud não deu conta de explicar, e Lacan ainda tentou, mas pela via psicótica.

É o meu medo que se concretiza, e, exatamente como imaginei: pouco depois de alguns dias de ilusão egocêntrica.
E sim, eu já sabia que nem sempre o "combinado" é o que deveria imperar,
Que o curso das coisas pode mudar completamente o previamente não-dito...
mas como eu seria previsível se isso não atingisse a liberdade nivelada que me controla e dita meus atos e atuações, como eu não seria eu!

Nesse momento eu mudaria o final da letra de Andrea Doria
Dormiria sem a solidão das horas
E faria outras pessoas lerem esse blog
...
Mesmo sabendo que a repetição viria tão excentricamente igual à de hoje
À de amanhã
À da próxima sessão de análise.