Não é pra você que escrevo.
Não, é pra você que escrevo.
Uma terapia qualquer.
As repetições do meu divã imaginário.
Julgamento do desejo.
Réu: Meritíssimo, eu errei porque fui enganado! Aprendi que isso a que chamam "amor" não foi tudo o que se precisava para viver e manter aquele relacionamento. Por favor, tenha piedade. Não foi minha culpa!
Juiz: Economize suas palavras, senhor Desejo. Sua culpa esteve em se permitir confundir com outros sentimentos escancarados pela ferida narcísica, como este orgulho ilusoriamente egoísta que carrega como trunfo em sua censura.
Réu: Eu sei, meritíssimo. Não consegui me desfazer do orgulho, e sei que estou condenado assim a amar sozinho, ou pior, a amar eternamente um ideal de amor romântico fracassado. Por favor, não me condene. Não há nada pior do que isto.
Juiz: Sim, há algo pior do que isto. Por isso, anuncio que deixo que o senhor permaneça vivo, mas condenado à pena perpétua de dividir os restos do que sobrou daquilo que não endereçou a quem realmente desejava, ao invés de simplesmente amar sozinho ou se alimentar de ilusões fracassadas. Condeno-o a desperdiçar tudo a que chamam "amor".
A escolhida.
Cena do filme "Nome Próprio" (2007)
A necessidade de escrever gritou ao ver os créditos finais, e ela, ao contrário daqueles que continuam surdos nas cenas, consegue escutar o que fala para si mesma.
Voraz e cheia de cicatrizes como Camila (a protagonista do filme), ela, intensamente, não escolhe. Permanece e apodrece na prateleira, como um produto esperando pelo próximo consumidor sedento por um deleite de efemeridades.
Inventa as horas, os detalhes e todos os cheiros que não lhe foram designados por escolha própria. Inventa personagens, e faz com que eles roubem toda a inspiração que só o vazio a proporciona, pois insiste em se deixar tomar pela sensação de torpor que surge quando está ao lado do paralizante e cômodo bem-estar sufocante a que nomeiam "paixão".
Ao tentar dormir, ela sonha com o desespero de perder aquilo que não consegue nomear, mas chama de seu com a propriedade de objeto consumado. Acorda assustada, e, ao tentar "analisar" o que sonhou, confirma que não sabe qual seria, de fato, a causa de tanto desespero.
São nas associações livres do divã que ela consegue dizer que nem sabe o que tem medo de perder, já que nada daquilo foi de sua escolha.
Na falta de culpados, fala da ausência de seus nãos, da disponibilidade do desejante, da sede de ser amada, do prazer narcísico de ser a escolhida.
Como no outro sonho em que corre nua pelas ruas, e percebe que só ela mesma em todo o bairro se incomoda com a sua falta de vestes, ela não é a-notada.
Escreve, agora, para escancarar ainda mais a dor para si mesma e para quem não quer perceber, para se dar ao falso luxo de escolher o valor que deseja ter na prateleira.
Sobre amores e carros.
- [...] Nossa, e como é complicado ter um equilíbrio de controles no relacionamento, né? Sempre tem um que quer mandar mais que o outro.
- Por que te incomoda? Na certa você deve ser a dominada!
- Pior que não.
- Então qual é o problema? Desde quando virou ruim mandar e ser obedecida?
- Não gosto de extremos. Culpa desse meu ascendente.
- Sabe qual é a semelhança entre relacionamentos e carros?
- Não conhecia esse seu lado interesseira.
- Não, pensa comigo: no "carro-casal", não é melhor que cada um tenha o seu volante, ou seja, cada motorista o seu controle?
- Prefiro a metáfora do barquinho, do Caio F. Mas vem cá, seriam dois volantes, dois bancos, dois câmbios de marcha, dois freios? Pra quê tanta segregação, já que, no final das contas, o destino vai ser o mesmo?
- Ah, deve ser porque assim é muito mais fácil não invadir o espaço do outro. Durante uma briga, por exemplo: se cada um tem o seu controle em mãos, um dos dois vai ter que ceder. O carro não anda se cada um puxa o volante pro seu lado, até quebra se forçar muito.
- Quanto extremismo pra ter equilíbrio, não acha? Um co-piloto tem lá suas funções também, sabia?
- Sim, tem. Ele pode entrar quando um dos dois cansa de dirigir e quer colocar o carro em piloto automático. Só não pode dormir, é bom ter alguém mais descansado pra ajudar o outro a enxergar os buracos indesejáveis e sinalizações na estrada.
- Ok, dois volantes cairiam bem. Mas é mais confortável ter o meu carro, o meu volante e só. Não há sensação melhor do que poder frear a hora que quiser, dar a ré, diminuir ou aumentar a velocidade...
- Mais confortável que a sensação de ter ao lado alguém que te leve àquele lugar seguro?
- Por que te incomoda? Na certa você deve ser a dominada!
- Pior que não.
- Então qual é o problema? Desde quando virou ruim mandar e ser obedecida?
- Não gosto de extremos. Culpa desse meu ascendente.
- Sabe qual é a semelhança entre relacionamentos e carros?
- Não conhecia esse seu lado interesseira.
- Não, pensa comigo: no "carro-casal", não é melhor que cada um tenha o seu volante, ou seja, cada motorista o seu controle?
- Prefiro a metáfora do barquinho, do Caio F. Mas vem cá, seriam dois volantes, dois bancos, dois câmbios de marcha, dois freios? Pra quê tanta segregação, já que, no final das contas, o destino vai ser o mesmo?
- Ah, deve ser porque assim é muito mais fácil não invadir o espaço do outro. Durante uma briga, por exemplo: se cada um tem o seu controle em mãos, um dos dois vai ter que ceder. O carro não anda se cada um puxa o volante pro seu lado, até quebra se forçar muito.
- Quanto extremismo pra ter equilíbrio, não acha? Um co-piloto tem lá suas funções também, sabia?
- Sim, tem. Ele pode entrar quando um dos dois cansa de dirigir e quer colocar o carro em piloto automático. Só não pode dormir, é bom ter alguém mais descansado pra ajudar o outro a enxergar os buracos indesejáveis e sinalizações na estrada.
- Ok, dois volantes cairiam bem. Mas é mais confortável ter o meu carro, o meu volante e só. Não há sensação melhor do que poder frear a hora que quiser, dar a ré, diminuir ou aumentar a velocidade...
- Mais confortável que a sensação de ter ao lado alguém que te leve àquele lugar seguro?
SAU.DA.DE.
Hoje eu não tô afim de poetizar ou psic-analisar sobre a minha dor; a minha resistência é literária e tão forte quanto ela.
Isso é só mais uma tentativa frustrada de fazer falar esse monólogo da saudade.
Isso é só mais uma tentativa frustrada de fazer falar esse monólogo da saudade.
"Não consigo dizer se é bom ou mal
Assim como o ar me parece vital
Onde quer que eu vá o que quer que eu faça
Sem você não tem graça."
Assim como o ar me parece vital
Onde quer que eu vá o que quer que eu faça
Sem você não tem graça."
Fogo - Capital Inicial
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